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Novembro 11, 2009 :::
Sobre as paixões - esse tema manjadinho...
O tema é pra lá de surrado. Mas há sempre o que se falar sobre esse tóxico chamado paixão, que já rendeu e continua a render belíssimas literaturas. Logicamente, quase todos os mortais já tomaram pelo menos uma dose deste veneno ao longo da vida. E das duas uma: ou saíram arrebentados no final, ou saíram desacreditados.
Não posso acreditar em sentimentos que atuam como um LSD nas veias, que cegam, que transformam o olhar para a realidade, entorpecem, que se realizam nas urgências. A paixão é bela em sua eclosão, bela como só o diabo sabe ser, quando quer seduzir. E é poderosa. Desperta hormônios com violência, vontades nunca tidas, macrodesejos e prazeres descomunais. Em seu curso, porém, vai despertando paralelamente sentimentos e sensações destrutivas, ligadas à posse, à dependência, a ansiedades e inquietudes ensandecidas, a extremos condicionantes, paralisantes. E cegam, ensurdecem, emburrecem, aniquilam qualquer vestígio de lucidez. Por paixão, um ser desestruturado é capaz de matar ou morrer. Não, obrigada. Dispenso as paixões, que hoje entendo como disfunções fisiológicas que adoecem a alma (acho que Platão já afirmou algo nesse sentido). Obviamente, nenhuma juventude está livre delas. Na juventude, as paixões chegam a ser uma imposição, uma necessidade, até para que possamos reconhecê-las e adquirir imunidade aos seus estragos, mais adiante. Na maturidade, é dar a cara pra bater.
O estado de paixão é a antítese do amor. Amor é outra conversa. Aí há saúde, conhecimento e solidez, esperas serenas. Há entrega e desprendimento, há confiança, comunhão e paz. É sentimento que se constrói com o tempo, que não chega de impacto, não chega vestido com os mantos purpúreos e esplendorosos da paixão. É de uma nudez discreta. O discurso do amor fala das simplicidades, não usa hipérboles. Mas fala a verdade porque fala de amor. E o que é o amor senão o encontro de duas verdades que se complementam?
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meraluz at 6:27 PM - post nº
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A inteligência, a erudição e a sabedoria

Embora esses três atributos sejam, muitas vezes, confundidos e apareçam entrelaçados, há que se dar a César o que é de César e separar o joio do trigo.
Acho que a melhor maneira de se fazer isso é com exemplos retirados da minha própria luneta, exclusivamente destinada a observar personagens que gravitam ou gravitaram em torno de mim.
Para falar de inteligência, a primeira pessoa que me vem à cabeça é minha mãe. Pelas dificuldades enfrentadas no passado, não era uma mulher muito letrada. Às duras penas, concluiu o primeiro grau. Porém, foi contemplada - provavelmente pela genética - com uma inteligência nata. Raciocínio na velocidade da luz, comunicação fácil, assimilação rápida, memória estupenda. Tão inteligente e destemida que se lançou à vida, à luta, ao trabalho suado, e logo assegurou seu lugar ao sol, porque sabia que não lutar e não evoluir seria burrice. Tão inteligente que, percebendo que deveria voltar aos estudos para o bem dessa evolução, não hesitou em fazer um supletivo aos 40 anos e posteriormente um vestibular. Enfermagem, tinha que ser Enfermagem, pela sua inexorável vocação de cuidar dos doentes e necessitados. Assimilou, com facilidade e rapidez, valores, modos e comportamentos do meio em que passou viver, bem mais requintado do que o de sua infância. Tinha respostas rápidas para qualquer questão, soluções imediatas para qualquer impasse, e uma capacidade de liderança invejável. Nunca seria uma pessoa erudita, embora tivesse adquirido, com o tempo, alguma cultura. Não era de sua natureza. Mas minha mãe era inteli-gente. Aprendia fácil e sabia utilizar qualquer conhecimento adquirido com eficiência.
A erudição nem sempre está condicionada à inteligência, muito menos ligada à sabedoria. Um erudito pode ser inteligente ou não, pode ser sábio ou não. Isto porque a erudição é apreendida, é de movimentos centrípetos, de fora para dentro. Conheci, certa vez, um sujeito de falas envolventes, capaz de citar dezenas de autores e suas teorias em uma simples conversa de dez minutos. Admirava sua cultura, sua erudição, sua conversa, mas não admirava sua personalidade. Por quê? Porque ele não fazia mais do que repetir no vazio conceitos que não eram seus. Vinham de Platões, Sócrates, Nietzches, Sartres, Gides, Shakespeares, Hegels, Marxs, Kants, Kafkas, etc. etc. etc. E o que fazia com esses conceitos? Porra nenhuma. Nem pra si, nem para os outros. Lembro-me do meu tempo de universidade. Premida pelos arroubos da juventude, eu queria ser erudita. Achei que isso me ajudaria a "mudar o mundo" (oh, ilusão!). Comecei a devorar livros, a dissecar filósofos, frequentar grupos intelectuais. Mas logo após concluir que a erudição não serviria para muitas ações, parei no meio do caminho. Nada como a maturidade para nos fazer ver que "não vamos mudar o mundo" e que o tempo é um bem precioso demais para nos manter amarrados a infindáveis pesquisas, leituras e releituras que não estão a serviço da transformação. Isto não quer dizer que tenha abandonado o hábito de ler. Apenas leio sem a pretensão da erudição e com o foco mais voltado para os ensinamentos da vida. Deixo essa missão para os diletantes, para os que se comprazem em se afirmar reproduzindo ao mundo o preciocismo de palavras e ideias que não são suas.
Finalmente, a sabedoria. Não há muito o que se falar dela, porque é silenciosa, plena e intransmissível. O conhecimento, a cultura, as doutrinas são transmissíveis. A sabedoria nunca. O sábio é um iluminado. A sabedoria não pressupõe a inteligência ou a erudição. Revela-se em atitudes, condutas, tem a ver com valores, com olhares, com o que a vida esculpe em nós, com uma espécie de estado de semidivindade. Conheci poucas pessoas a quem poderia chamar de sábias. E uma delas, por incrível que pareça, era um peão de fazenda, que pouco estudo tinha. Considerava-o um sábio porque seus movimentos, seus eflúvios, sempre se mostravam em total consonância com a natureza. O humilde cidadão parecia caber dentro de si com uma precisão matemática. Nunca se abalava. Aceitava a vida na mesma medida em que parecia aceitar a morte. Uma vez, conversando com ele na mais simples das linguagens, expus-lhe um certo dilema que estava vivendo. Estava atormentada por dúvidas e incertezas diante de uma decisão que deveria tomar. O homem, ao ver minha aflição, levantou os olhos - olhos de quem carregava em si todos os sabores e dissabores da vida - e disse, com seu português claudicante: "Madame, fique assim não. Não adianta, é "perca" de tempo. O que tem que ser feito tem que ser feito. E a senhora sabe o que tem que ser feito." Acenou-me com o chapéu de palha, virou-se tranquilamente e voltou para o seu ofício de lavrar a terra, cuidar dos bichos e fazer a natureza multiplicar seus recursos. Este era um sábio. E até hoje, toda vez que algum dilema se apresenta, eu me lembro de suas palavras determinantes: "o que tem que ser feito tem que ser feito". E faço. Cumpro sem hesitar o que a vida me solicita. Se a ação resulta em sofrimento ou não, este é um outro problema. Mas pelo menos livro-me das incertezas, que é das piores torturas que há nesta vida.
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meraluz at 6:26 PM - post nº
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